Médico segurando smartphone com aplicativo de dose de adrenalina em sala de emergência

Na emergência, existe um intervalo crítico entre o paciente que está hipotenso e o paciente que está em parada. É nesse intervalo — a peri-parada — que o push dose de adrenalina encontra seu papel. Não é a adrenalina da PCR. Não é a noradrenalina em bomba de infusão. É uma ferramenta intermediária, de ação rápida, para ganhar tempo enquanto medidas definitivas são instituídas.

Apesar de amplamente difundido na prática de emergencistas e intensivistas, o push dose de vasopressores ainda gera dúvidas sobre preparo, dose e indicação. Compartilho aqui o racional clínico e o passo a passo prático.

O que é o push dose de adrenalina?

Push dose (ou dose empurrada) é a administração de pequenas doses de adrenalina diluída em bolus endovenoso direto, com o objetivo de produzir efeito vasopressor e inotrópico imediato em situações de instabilidade hemodinâmica aguda.

O conceito foi popularizado por Scott Weingart e faz parte do arsenal de manejo da hipotensão peri-intubação e do choque em fase de deterioração rápida. A lógica é simples: o paciente precisa de suporte hemodinâmico agora, mas a droga vasoativa em bomba de infusão contínua (BIC) ainda não está pronta ou o acesso central ainda não foi obtido.

O push dose funciona como uma ponte hemodinâmica — sustenta a pressão arterial por 5 a 10 minutos enquanto a equipe prepara a infusão contínua.

Quando indicar?

As principais indicações são situações em que a hipotensão é aguda, sintomática e precisa de intervenção imediata:

Hipotensão peri-intubação: provavelmente a indicação mais comum. A sequência rápida de intubação (SRI) pode causar queda abrupta de PA por múltiplos mecanismos — abolição do tônus simpático, efeito dos sedativos/indutores, ventilação com pressão positiva em paciente hipovolêmico. Ter o push dose preparado antes da intubação é uma medida de segurança que deveria ser rotina.

Bradicardia sintomática com hipotensão enquanto se prepara marcapasso transcutâneo ou atropina não foi eficaz.

Choque em deterioração rápida — paciente que está piorando e a noradrenalina em BIC ainda não está disponível.

Pós-parada com hipotensão — após retorno da circulação espontânea (RCE), enquanto se organiza o suporte vasoativo definitivo.

Anafilaxia com hipotensão refratária à adrenalina intramuscular — como suporte adicional até estabilização.

Quando NÃO usar

O push dose não substitui a infusão contínua de vasopressores. Ele é uma ponte, não um tratamento definitivo. Não é indicado:

  • Como substituto da adrenalina IM na anafilaxia (a via IM continua sendo a primeira linha)
  • Em pacientes com taquiarritmias instáveis (o efeito beta-adrenérgico pode piorar o quadro)
  • Como "rotina" para qualquer hipotensão — o racional clínico deve justificar o uso
  • Na PCR — na parada cardíaca, a dose é 1 mg EV em bolus (não diluída para push dose)

Como preparar: passo a passo

Existem dois métodos validados na prática. O mais utilizado no Brasil:

Método 1 — Diluição com SF 0,9% (mais comum)

  1. Pegue 1 ampola de adrenalina 1:1.000 (1 mg/mL = 1 mL).
  2. Aspire o conteúdo da ampola (1 mL = 1.000 mcg).
  3. Dilua em 9 mL de SF 0,9% em uma seringa de 10 mL.
  4. Resultado: seringa de 10 mL com concentração de 100 mcg/mL.
  5. Administre 0,5 a 2 mL por vez (= 50 a 200 mcg) em bolus lento (a cada 15–20 segundos), titulando pela resposta hemodinâmica.

Método 2 — Diluição com SF 0,9% (maior diluição)

  1. Pegue 1 ampola de adrenalina 1:1.000 (1 mg/mL = 1 mL).
  2. Dilua em 100 mL de SF 0,9%.
  3. Resultado: concentração de 10 mcg/mL.
  4. Administre 1 a 2 mL por vez (= 10 a 20 mcg).

Na prática, o Método 1 (seringa de 10 mL) é o mais utilizado por ser mais rápido de preparar e mais prático à beira-leito. A concentração de 100 mcg/mL permite titular com volumes pequenos.

Checklist de segurança no preparo

  • Identifique a seringa — rotule com "ADRENALINA PUSH DOSE — 100 mcg/mL" ou a concentração utilizada. Seringas não identificadas em cenário de emergência são fonte de erro grave.
  • Confirme a concentração da ampola — no Brasil, a apresentação padrão é 1:1.000 (1 mg/mL). Confundir com 1:10.000 (que existe em alguns kits de PCR) muda completamente a dose.
  • Não use a ampola pura — administrar 1 mL de adrenalina 1:1.000 (1.000 mcg) em bolus em paciente que não está em PCR pode causar crise hipertensiva, arritmias graves e até parada cardíaca.

Farmacodinâmica: por que funciona

A adrenalina é um agonista adrenérgico não seletivo:

  • Efeito alfa-1: vasoconstrição periférica → aumento da resistência vascular sistêmica → eleva PA
  • Efeito beta-1: aumento da frequência cardíaca e contratilidade miocárdica → eleva débito cardíaco
  • Efeito beta-2: broncodilatação (relevante na anafilaxia)

Em doses baixas (push dose), o efeito predominante é beta-adrenérgico (inotrópico e cronotrópico). Conforme a dose aumenta, o componente alfa (vasopressor) se torna mais pronunciado. Isso explica por que o push dose funciona bem na hipotensão com componente de baixo débito.

A meia-vida da adrenalina EV é de aproximadamente 2 a 3 minutos, o que significa que o efeito do push dose dura cerca de 5 a 10 minutos — tempo suficiente para preparar a infusão contínua.

Administração e monitorização

  • Administre por acesso venoso periférico calibroso (não é necessário acesso central para push dose).
  • Injete em bolus lento, ao longo de 15 a 20 segundos — não é para ser dado tão rápido quanto a adrenalina da PCR.
  • Monitore continuamente: PA (idealmente invasiva, mas não-invasiva serve), FC, ritmo cardíaco, SpO₂.
  • Titule pela resposta: se a PA não subiu adequadamente, repita a dose em 2 a 5 minutos.
  • Não repita indefinidamente — se o paciente precisa de mais de 2 a 3 doses, é hora de iniciar vasopressor em infusão contínua (noradrenalina é a primeira linha na maioria dos choques).
  • Fique atento a: taquicardia excessiva, arritmias, hipertensão rebote. Se ocorrerem, a meia-vida curta é sua aliada — o efeito passará em poucos minutos.

Push dose de fenilefrina: a alternativa

Em situações onde o componente predominante é vasodilatação pura (hipotensão pós-raquianestesia, por exemplo) e não se deseja o efeito cronotrópico da adrenalina, a fenilefrina em push dose é uma alternativa:

  • Fenilefrina 100 mcg em bolus EV (alfa-1 puro, sem efeito beta significativo).
  • Preparo: diluir 1 mL de fenilefrina (10 mg/mL) em 100 mL de SF → 100 mcg/mL. Administrar 1 mL por vez.

Na emergência clínica, porém, a adrenalina costuma ser a primeira escolha por sua disponibilidade universal e efeito combinado (alfa + beta).

Erro mais perigoso: confusão de concentração

O erro mais grave e mais relatado com push dose de vasopressores é a administração da ampola não diluída. Injetar 1 mg de adrenalina (a ampola inteira) em bolus em um paciente que não está em PCR pode causar:

  • Crise hipertensiva grave
  • Taquiarritmias ventriculares
  • Edema agudo de pulmão
  • Hemorragia intracraniana
  • Parada cardíaca

Por isso, a padronização do preparo é crítica. Muitos serviços adotam seringas pré-preparadas ou protocolos visuais de diluição. Ter o cálculo de dose acessível — seja em protocolo institucional impresso, seja em ferramentas digitais como o CalcMed — reduz esse risco.

Considerações finais

O push dose de adrenalina é uma ferramenta elegante e eficaz para o manejo da hipotensão aguda em cenários de peri-parada. Seu valor está na simplicidade, na rapidez de preparo e na capacidade de sustentar o paciente enquanto medidas definitivas são organizadas.

O ponto mais importante: é uma ponte, não um destino. A infusão contínua de vasopressores deve ser iniciada assim que possível. E o preparo correto — com diluição adequada, identificação da seringa e conhecimento da dose — é o que separa uma intervenção que salva de uma que prejudica.

Domine o preparo antes de precisar. Treine em cenário simulado. Tenha o protocolo de diluição acessível no seu plantão. Quando a hipotensão chegar, você já vai saber exatamente o que fazer.

Perguntas frequentes

O que é push dose de adrenalina? É a administração de adrenalina diluída em pequenas doses por via endovenosa direta (bolus lento), indicada para hipotensão aguda em cenários de peri-parada. O objetivo é fornecer suporte hemodinâmico imediato enquanto a infusão contínua de vasopressores é preparada.

Como preparar push dose de adrenalina? O método mais prático: aspire 1 mL de adrenalina 1:1.000 (1 mg) e dilua em 9 mL de SF 0,9% em seringa de 10 mL. A concentração final é 100 mcg/mL. Administre 0,5 a 2 mL (50 a 200 mcg) por vez em bolus lento, titulando pela resposta da pressão arterial.

Quando indicar push dose de adrenalina? As principais indicações são hipotensão peri-intubação, bradicardia sintomática com hipotensão, choque em deterioração rápida sem vasopressor em BIC disponível e hipotensão pós-RCE. Também pode ser considerado na anafilaxia com hipotensão refratária à adrenalina IM.

Quais os riscos do push dose de adrenalina? O principal risco é a administração de dose excessiva por erro de diluição, podendo causar crise hipertensiva, arritmias ventriculares e até parada cardíaca. Outros riscos incluem taquicardia excessiva e isquemia miocárdica. A rotulagem da seringa e a padronização do preparo são as principais medidas de segurança.

Qual a diferença entre push dose de adrenalina e adrenalina na PCR? Na PCR, a adrenalina é administrada na dose de 1 mg (1.000 mcg) em bolus rápido, sem necessidade de diluição adicional. No push dose, a dose é 50 a 200 mcg (50 a 200 vezes menor), diluída, em bolus lento, para pacientes com pulso que estão hipotensos. São contextos e doses completamente diferentes.

Referências:

  • Weingart SD, et al. Push-dose pressors for immediate blood pressure control. Clin Exp Emerg Med. 2015;2(2).
  • Panchal AR, et al. 2020 AHA Guidelines for CPR and ECC. Circulation. 2020;142(16 Suppl 2).
  • Holden D, et al. Bolus-dose vasopressors in the emergency department. Ann Emerg Med. 2018;71(1).
  • Acquisto NM, et al. Bolus-dose vasopressors in the ED: a review. Am J Emerg Med. 2019;37(8).


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Gustavo Vitoria

Sobre o Autor

Gustavo Vitoria

Médico cardiologista, fundador da CalcMed. Atua em urgência e emergência com foco em decisão clínica baseada em evidências.

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