No universo das emergências médicas, um dos momentos que testam de verdade nossa agilidade e conhecimento é o manejo das taquicardias supraventriculares (TSV). Cada segundo que passa no plantão exige clareza e confiança. Compartilho aqui o passo a passo, a lógica clínica e as dicas práticas para o uso da adenosina nesse cenário — um recurso que pode mudar o desfecho do paciente em poucos segundos.
Entendendo a taquicardia supraventricular
A taquicardia supraventricular (TSV) engloba as arritmias com origem acima dos ventrículos, tipicamente envolvendo o nó atrioventricular (AV) ou os átrios. As formas mais comuns são a taquicardia por reentrada nodal (TRN) e a taquicardia por reentrada atrioventricular (TRAV), ambas com início e término súbitos, frequência cardíaca geralmente entre 150 e 250 bpm e QRS estreito na maioria dos casos.
Clinicamente, costuma se manifestar com palpitações de início abrupto, desconforto torácico, tontura e, em casos mais graves, instabilidade hemodinâmica com hipotensão e sinais de baixo débito. Um ponto importante: paciente hemodinamicamente instável com TSV deve ser submetido a cardioversão elétrica sincronizada, e não ao protocolo medicamentoso com adenosina.
Ao me deparar com um paciente sintomático, o primeiro passo é confirmar no monitor ou no ECG de 12 derivações que se trata de uma taquicardia de QRS estreito regular — o diagnóstico eletrocardiográfico é fundamental antes de qualquer intervenção.
Primeiro passo: manobras vagais
Antes de partir para a adenosina, as diretrizes da AHA (2015) e da ESC (2019) recomendam tentar manobras vagais como primeira linha de tratamento na TSV estável.
A manobra de Valsalva modificada, descrita no estudo REVERT (Appelboam et al., Lancet, 2015), mostrou taxa de reversão de aproximadamente 43%, significativamente superior à Valsalva padrão (~17%). A técnica consiste em:
- Paciente sentado a 45°, realizar esforço expiratório contra resistência (seringa de 10 mL) por 15 segundos.
- Imediatamente após, reclinar o paciente a 0° (posição supina) e elevar passivamente os membros inferiores a 45° por 15 segundos.
- Retornar à posição sentada.
A massagem do seio carotídeo é outra opção, mas deve ser evitada em pacientes com sopro carotídeo, história de AVC/AIT ou doença carotídea conhecida.
Se as manobras vagais não reverterem a arritmia, aí sim partimos para a adenosina.
Por que adenosina é a droga de escolha?
A adenosina atua bloqueando temporariamente a condução pelo nó AV, interrompendo o circuito de reentrada. Sua principal vantagem é a meia-vida ultracurta — inferior a 10 segundos — o que confere um perfil de segurança favorável com efeitos autolimitados.
Funciona essencialmente como um "reset" transitório da condução AV: se o circuito da arritmia depende do nó AV (como na TRN e na TRAV), a adenosina o interrompe. Esse efeito imediato é, ao mesmo tempo, poderoso e desafiador — exige do profissional uma execução técnica impecável.
Papel diagnóstico: Mesmo quando não reverte a arritmia, a adenosina tem valor diagnóstico. Ao produzir bloqueio AV transitório, pode desmascarar a atividade atrial subjacente — revelando ondas F de flutter atrial, ondas f de fibrilação atrial ou ondas P de taquicardia atrial — ajudando a refinar o diagnóstico.
Manejo prático da administração
Ao preparar a adenosina, reviso mentalmente cada etapa. Os pontos indispensáveis:
- Acesso venoso adequado: preferencialmente em veia antecubital ou outra veia proximal calibrosa. Evite veias de mão ou punho — a degradação rápida do fármaco na circulação periférica reduz a eficácia.
- Técnica de administração com torneirinha de 3 vias (two-syringe technique): conectar a seringa de adenosina e a seringa de flush (20 mL de SF 0,9%) na torneirinha, que já deve estar acoplada ao acesso venoso. Administrar a adenosina em bolus rápido, fechar imediatamente a via da adenosina e abrir a do flush, injetando-o de forma vigorosa. Essa técnica garante que o flush seja praticamente simultâneo.
- Comunicação com a equipe: alertar sobre a ação rápida e os efeitos transitórios esperados — assistolia breve (pode durar alguns segundos) e sensação intensa de mal-estar são esperados e autolimitados.
- Registro em ECG contínuo: manter a monitorização cardíaca registrando durante toda a administração. O ideal é ter uma tira de ritmo longa rodando — o resultado é quase instantâneo e o registro é fundamental tanto para documentação quanto para análise diagnóstica caso a reversão não ocorra.
- Elevar o membro do acesso venoso logo após a injeção para facilitar a chegada do fármaco à circulação central.
Doses de adenosina
Adultos
Pediatria

Sempre com flush imediato de SF 0,9% após cada dose.
Contraindicações
A adenosina não deve ser utilizada nas seguintes situações:
- Bloqueio AV de 2º ou 3º grau (sem marcapasso funcionante)
- Doença do nó sinusal (sem marcapasso funcionante)
- Asma ou broncoespasmo grave — a adenosina pode provocar broncoconstrição significativa. Em asmáticos, considerar verapamil IV como alternativa (desde que não haja suspeita de pré-excitação ou disfunção ventricular)
- Hipersensibilidade conhecida à adenosina
- QRS largo de origem incerta — não administrar adenosina se houver qualquer dúvida sobre a origem ventricular da taquicardia
Cuidados após a administração
Assim que a adenosina é aplicada, aviso o paciente sobre as possíveis sensações: calor, rubor facial, opressão torácica, dispneia transitória e sensação de "aperto" — tudo isso é esperado e dura segundos.
Se a reversão não ocorrer, a conduta é:
- Analisar a tira de ritmo registrada durante a administração — a adenosina pode ter revelado a atividade atrial subjacente.
- Reavaliar o diagnóstico: considerar flutter atrial, taquicardia atrial, taquicardia juncional ou taquicardia de QRS estreito não dependente do nó AV.
- Se confirmada TSV por reentrada nodal refratária à adenosina, considerar verapamil ou diltiazem IV (na ausência de pré-excitação e disfunção ventricular).
Dicas práticas para o sucesso
- Nunca aplique adenosina em veia periférica distal — a taxa de sucesso cai significativamente.
- O flush deve ser simultâneo e vigoroso — usar a técnica com torneirinha de 3 vias.
- Mantenha o desfibrilador próximo e funcionante durante o procedimento.
- Registre ECG contínuo — o trecho durante e após a administração tem valor diagnóstico inestimável.
- Em caso de recorrência da TSV após reversão com adenosina, considerar agentes de ação mais prolongada (diltiazem, verapamil ou betabloqueador IV) para manutenção do ritmo sinusal.
- Ter protocolos atualizados e doses prontas — ferramentas como o CalcMed ajudam a reduzir o risco de erro sob pressão.
Considerações finais
O manejo da TSV com adenosina é um exemplo de como treinamento, preparação e acesso à informação correta fazem diferença no desfecho. Desde a tentativa inicial com manobras vagais, passando pelo preparo da dose, a técnica de administração com flush, até o acompanhamento pós-reversão — cada detalhe conta.
Minha dica: treine a lógica do procedimento, domine a técnica da torneirinha de 3 vias e não hesite em consultar referências rápidas durante o plantão. O CalcMed pode ser um aliado nesse sentido, com doses, indicações e fluxogramas de atendimento acessíveis direto pelo celular.
Perguntas frequentes
O que é adenosina e para que serve? A adenosina é um nucleosídeo endógeno utilizado como antiarrítmico para reversão de taquicardias supraventriculares por reentrada nodal. Atua bloqueando temporariamente a condução pelo nó AV, interrompendo o circuito arritmogênico.
Como a adenosina age na taquicardia supraventricular? A adenosina se liga aos receptores A1 no nó AV, ativando canais de potássio e hiperpolarizando as células nodais. Isso produz um bloqueio AV transitório que interrompe o circuito de reentrada. O efeito dura menos de 10 segundos.
Quando devo usar adenosina para TSV? A adenosina é indicada em TSV estável por reentrada nodal ou atrioventricular quando as manobras vagais (especialmente a Valsalva modificada) não foram eficazes. Em pacientes instáveis, a conduta é cardioversão elétrica sincronizada, não adenosina.
Quais os efeitos colaterais da adenosina? Os efeitos mais comuns são rubor facial, sensação de calor, opressão torácica, dispneia e sensação de mal-estar intenso. Podem ocorrer pausas sinusais ou assistolia transitória de poucos segundos. Todos são autolimitados. Em asmáticos, há risco de broncoespasmo significativo.
A adenosina pode ser usada em gestantes? Sim. A adenosina é considerada segura na gestação e é a droga de primeira escolha para TSV em gestantes, pois não atravessa a barreira placentária de forma significativa e tem meia-vida ultracurta.
A adenosina precisa de prescrição médica? Sim. A administração de adenosina deve ser feita exclusivamente sob prescrição e supervisão médica, com monitorização cardíaca contínua, acesso venoso adequado e equipamento de ressuscitação disponível.
Referências:
- Page RL, et al. 2015 ACC/AHA/HRS Guideline for the Management of Adult Patients With Supraventricular Tachycardia. Circulation. 2016;133(14).
- Brugada J, et al. 2019 ESC Guidelines for the management of patients with supraventricular tachycardia. Eur Heart J. 2020;41(5).
- Appelboam A, et al. Postural modification to the standard Valsalva manoeuvre for emergency treatment of supraventricular tachycardias (REVERT): a randomised controlled trial. Lancet. 2015;386(10005).
- Neumar RW, et al. 2010 AHA Guidelines for CPR and ECC — Part 8: Adult ACLS. Circulation. 2010;122(18 Suppl 3).

