Quadro branco em sala de emergência com diagrama de manejo da cetoacidose diabética

A cetoacidose diabética (CAD) é uma das emergências endocrinológicas mais frequentes no pronto-socorro. Apesar de ser uma condição bem estudada e com protocolos estabelecidos, erros de manejo continuam sendo comuns — em especial o início precoce de insulina sem correção do potássio, a hidratação insuficiente e a transição mal feita para insulina subcutânea. Neste post, organizo o raciocínio clínico e o manejo passo a passo com base nas diretrizes da ADA (2009, atualizado em 2024), NICE e BSPED.

O que é a cetoacidose diabética?

A CAD é uma descompensação metabólica aguda caracterizada pela tríade:

  • Hiperglicemia (geralmente > 250 mg/dL)
  • Acidose metabólica (pH < 7,3 e/ou bicarbonato < 18 mEq/L)
  • Cetonemia (beta-hidroxibutirato ≥ 3 mmol/L) ou cetonúria fortemente positiva

A fisiopatologia é direta: deficiência absoluta ou relativa de insulina leva ao uso de ácidos graxos como substrato energético, com produção excessiva de corpos cetônicos (acetoacetato, beta-hidroxibutirato e acetona), resultando em acidose metabólica com ânion gap elevado.

Um ponto importante: a CAD não é exclusiva do diabetes tipo 1. Pode ocorrer em DM tipo 2, especialmente em situações de estresse grave (sepse, IAM, cirurgias), uso de inibidores de SGLT2 (CAD euglicêmica) e em pacientes com diabetes tipo 2 propenso à cetose (Flatbush diabetes).

CAD euglicêmica — armadilha diagnóstica

A CAD euglicêmica (glicemia < 250 mg/dL com acidose e cetonemia) é uma apresentação cada vez mais relevante com o uso crescente dos inibidores de SGLT2 (empagliflozina, dapagliflozina, canagliflozina). O diagnóstico exige alto índice de suspeição: paciente em uso de SGLT2 com acidose metabólica com ânion gap elevado, mesmo com glicemia normal ou levemente elevada — pense em CAD e dose cetonas.

Avaliação inicial — o que pedir?

Ao confirmar a suspeita de CAD, a avaliação laboratorial inicial deve incluir:

  • Gasometria arterial (pH, pCO₂, bicarbonato, lactato)
  • Glicemia capilar e sérica
  • Eletrólitos: Na⁺, K⁺, Cl⁻, Mg²⁺, P (fósforo)
  • Função renal (ureia e creatinina)
  • Cetonemia (beta-hidroxibutirato — preferível) ou cetonúria
  • Hemograma, PCR
  • Ânion gap: Na⁺ − (Cl⁻ + HCO₃⁻) — normal 8–12, na CAD tipicamente > 12
  • ECG (descartar IAM como gatilho e avaliar sinais de hipo/hipercalemia)
  • Busca ativa do fator precipitante

Sódio corrigido

A hiperglicemia causa hiponatremia dilucional por efeito osmótico. O sódio corrigido deve ser calculado para guiar a fluidoterapia:

Na⁺ corrigido = Na⁺ medido + 1,6 × [(glicemia − 100) / 100]

Se o Na⁺ corrigido estiver elevado, isso indica déficit de água livre importante.

Identificar o fator precipitante

Os fatores precipitantes mais comuns — e que devem ser tratados em paralelo:

  • Infecção (causa mais comum — ITU, pneumonia, celulite)
  • Má adesão à insulinoterapia (especialmente em adolescentes e adultos jovens)
  • Primeiro episódio de diabetes (diagnóstico inaugural)
  • Evento cardiovascular (IAM, AVC)
  • Drogas (corticoides, antipsicóticos atípicos, inibidores de SGLT2)
  • Cirurgias, trauma, gestação

Etapa 1 — Hidratação (prioridade máxima)

A reposição volêmica é o primeiro passo e, isoladamente, já reduz a glicemia, melhora a perfusão renal e dilui os cetoácidos. O erro mais comum é subidratar.

Primeira hora:

  • SF 0,9%: 15–20 mL/kg/h (em geral, 1.000 a 1.500 mL na primeira hora para adultos de 70 kg).
  • Em pacientes com choque ou hipotensão grave, priorizar ressuscitação volêmica agressiva.

Horas subsequentes:

  • Avaliar o Na⁺ corrigido:
  • Se Na⁺ corrigido normal ou elevado → SF 0,45% a 250–500 mL/h.
  • Se Na⁺ corrigido baixo → manter SF 0,9% a 250–500 mL/h.
  • Ajustar velocidade conforme estado hemodinâmico, débito urinário e comorbidades (IC, DRC).

Quando a glicemia atingir 200 mg/dL:

  • Adicionar SG 5% (ou trocar para SF 0,45% + SG 5%) para evitar hipoglicemia e permitir manutenção da insulina até resolução da acidose.

Déficit hídrico estimado: pacientes com CAD têm, em média, déficit de 5 a 7 litros. A reposição completa deve ocorrer ao longo de 24 a 48 horas — não tente repor tudo nas primeiras horas.

Etapa 2 — Potássio (antes da insulina!)

O potássio é o eletrólito mais perigoso na CAD. Apesar de o potássio sérico poder estar normal ou até elevado na apresentação, o potássio corporal total está invariavelmente depletado. A insulina agrava essa depleção ao promover a entrada de K⁺ nas células.

Regra fundamental:

Iniciar insulina com K⁺ < 3,5 é um dos erros mais perigosos no manejo da CAD — pode precipitar arritmias fatais.

Etapa 3 — Insulinoterapia

Após confirmar K⁺ ≥ 3,5 e iniciar a hidratação:

Protocolo padrão (infusão contínua EV):

  • Insulina regular: 0,1 U/kg/h em infusão contínua (BIC).
  • Bolus inicial de 0,1 U/kg pode ser feito, mas não é obrigatório e muitos serviços o omitem sem prejuízo de desfecho (Goyal et al., 2010).
  • Meta de queda glicêmica: 50 a 75 mg/dL por hora.

Se a glicemia não cair pelo menos 50 mg/dL na primeira hora:

  • Verificar se o acesso está pérvio e a bomba funcionando.
  • Dobrar a taxa de infusão.

Quando a glicemia atingir 200 mg/dL:

  • Reduzir a insulina para 0,02–0,05 U/kg/h.
  • Iniciar SG 5% para manter glicemia entre 150–200 mg/dL.
  • Não suspender a insulina — a insulina deve ser mantida até a resolução da acidose, não até a normalização da glicemia. Esse é um conceito-chave.

Protocolo alternativo (insulina SC para CAD leve/moderada):

Estudos (Umpierrez et al., 2004) demonstraram que a CAD leve a moderada pode ser tratada com insulina análoga rápida (lispro ou aspart) subcutânea a cada 1–2 horas, fora de UTI, com eficácia semelhante à infusão EV. Isso é útil em serviços sem vaga de UTI ou bomba de infusão.

  • Dose: 0,2 U/kg SC inicial, seguida de 0,1 U/kg SC a cada 1–2 horas até resolução.
  • Requer monitorização frequente (glicemia e gasometria a cada 2 horas).

Etapa 4 — Bicarbonato de sódio

A indicação de bicarbonato na CAD é restrita. A acidose da CAD se resolve com insulina e hidratação. O uso rotineiro de bicarbonato não melhora desfecho e pode causar efeitos adversos (hipocalemia paradoxal, acidose intracelular paradoxal, edema cerebral em crianças).

Indicação formal:

  • pH < 6,9 (segundo a ADA)
  • Alguns autores consideram pH < 7,0 com instabilidade hemodinâmica

Se indicado: NaHCO₃ 100 mEq em 400 mL de água destilada + 20 mEq de KCl, infundir em 2 horas. Reavaliar gasometria após.

Monitorização — o segredo do manejo bem-sucedido

A CAD exige reavaliação frequente e sistematizada:

ParâmetroFrequênciaGlicemia capilarA cada 1 horaGasometria + eletrólitosA cada 2–4 horas (a cada 2h se grave)PotássioA cada 2 horas (mais frequente se < 4,0)Balanço hídricoContínuoNível de consciênciaContínuo (Glasgow)Sinais vitaisA cada 1 hora

Ter um checklist de monitorização — seja em protocolo impresso ou digital (como o CalcMed) — ajuda a equipe a não perder reavaliações no ritmo do plantão.

Critérios de resolução da CAD

A CAD está resolvida quando todos os seguintes critérios forem atingidos:

  • Glicemia < 200 mg/dL
  • pH > 7,3
  • Bicarbonato ≥ 15 mEq/L
  • Ânion gap ≤ 12

Atenção: a glicemia normaliza antes da acidose resolver. Suspender insulina quando a glicemia cai, sem resolver a acidose, é um dos erros mais comuns e leva à recorrência.

Transição para insulina subcutânea — o momento crítico

A transição é o momento de maior risco de recaída. O ponto mais importante:

A insulina EV deve ser mantida por pelo menos 1 a 2 horas após a primeira dose de insulina SC. A meia-vida da insulina EV é de apenas 5 a 10 minutos — se a bomba for desligada antes que a insulina SC comece a agir (30–60 min para análogos rápidos), há uma janela sem cobertura insulínica, e a cetogênese retorna rapidamente.

Esquema prático de transição:

  1. Confirmar que os critérios de resolução foram atingidos.
  2. Calcular a dose de insulina SC (se paciente já usava, retornar ao esquema prévio; se naive, iniciar 0,5–0,8 U/kg/dia divididos em basal-bolus).
  3. Aplicar a insulina SC (basal + prandial antes de uma refeição).
  4. Manter a infusão EV por mais 1–2 horas após a SC.
  5. Suspender a BIC.

Complicações do tratamento

Algumas complicações podem ocorrer durante o manejo e precisam ser antecipadas:

Hipoglicemia: causada por não reduzir a insulina quando glicemia se aproxima de 200 mg/dL ou por não iniciar SG 5%. Monitorize glicemia horária.

Hipocalemia: a complicação mais perigosa. Prevenida pela reposição agressiva e pela regra de não iniciar insulina com K⁺ < 3,5.

Edema cerebral: raro em adultos, mais comum em crianças e adolescentes. Fatores de risco: correção rápida demais da glicemia, uso excessivo de bicarbonato, falha em corrigir Na⁺. Sinais de alerta: cefaleia, vômito, alteração de consciência após melhora inicial.

Hipercloremia e acidose metabólica hiperclorêmica: comum após grandes volumes de SF 0,9%. É autolimitada, mas pode confundir com persistência da CAD se avaliada apenas pelo pH/bicarbonato sem calcular o ânion gap. O ânion gap é o melhor marcador de resolução da cetoacidose.

Considerações finais

O manejo da CAD é protocolar, mas exige disciplina na execução. A sequência é: hidratar primeiro, corrigir potássio, iniciar insulina, monitorar de perto e não ter pressa de desligar a bomba. Cada etapa tem sua lógica fisiopatológica — quem entende o porquê erra menos do que quem apenas decora o como.

Mantenha protocolos acessíveis, treine a equipe e padronize a monitorização. A diferença entre um manejo bem-sucedido e uma complicação evitável está, quase sempre, nos detalhes que não foram revisados a tempo.

Perguntas frequentes

O que é cetoacidose diabética? A CAD é uma descompensação metabólica aguda do diabetes, caracterizada por hiperglicemia, acidose metabólica com ânion gap elevado e cetonemia. Resulta da deficiência de insulina com aumento de hormônios contrarreguladores, levando à lipólise e produção excessiva de corpos cetônicos.

Cetoacidose diabética só ocorre no diabetes tipo 1? Não. Embora seja mais comum no DM tipo 1, pode ocorrer no DM tipo 2 em situações de estresse grave, e também como CAD euglicêmica em pacientes em uso de inibidores de SGLT2 (empagliflozina, dapagliflozina).

Por que não posso iniciar insulina antes de checar o potássio? Porque a insulina promove a entrada rápida de potássio do extracelular para o intracelular. Se o K⁺ sérico já estiver baixo (< 3,5), a insulina pode precipitar hipocalemia grave com risco de arritmias fatais. O potássio deve ser corrigido primeiro.

Quando devo usar bicarbonato na CAD? Apenas quando o pH arterial for < 6,9, segundo a ADA. A acidose da CAD se resolve com insulina e hidratação. O uso rotineiro de bicarbonato não melhora desfechos e pode causar efeitos adversos.

Como sei que a CAD está resolvida? Quando todos os seguintes critérios forem atingidos simultaneamente: glicemia < 200 mg/dL, pH > 7,3, bicarbonato ≥ 15 mEq/L e ânion gap ≤ 12. A glicemia normaliza antes da acidose — não suspenda insulina baseado apenas na glicemia.

Qual o erro mais comum na transição para insulina subcutânea? Desligar a bomba de insulina EV antes que a insulina SC comece a agir. A insulina EV tem meia-vida de 5–10 minutos, então a BIC deve ser mantida por 1–2 horas após a aplicação da primeira dose SC para evitar rebote cetoacidótico.

Referências:

  • Kitabchi AE, et al. Hyperglycemic crises in adult patients with diabetes. Diabetes Care. 2009;32(7).
  • Umpierrez GE, et al. Treatment of diabetic ketoacidosis with subcutaneous insulin aspart. Diabetes Care. 2004;27(8).
  • Goyal N, et al. Utility of initial bolus insulin in the treatment of diabetic ketoacidosis. J Emerg Med. 2010;38(4).
  • ADA Standards of Care in Diabetes — 2024. Diabetes Care. 2024;47(Suppl 1).
  • Joint British Diabetes Societies (JBDS). The Management of Diabetic Ketoacidosis in Adults. 2023.



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Gustavo Vitoria

Sobre o Autor

Gustavo Vitoria

Médico cardiologista, fundador da CalcMed. Atua em urgência e emergência com foco em decisão clínica baseada em evidências.

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